OS “TRAILERS” DOS VELHOS TEMPOS E A (RE)SIGNIFICAÇÃO DA CULTURA VIA DESFILES DOS CARROS DE BOIS NO ESTADO DE GOIÁS [#VIU34]

Feira da Moagem de Formosa (GO) 2015. Foto: Max Müller (@maxmullermm)

Por ROMERO RIBEIRO e ROZÂNGELA APARECIDA DE OLIVEIRA
Desde a sua ativa colonização nas primeiras décadas do século XVIII, de maneira específica com o delírio da exploração aurífera – principiada no ano de 1725 -, o estado de Goiás e sua gente sofriam com as dificuldades de transportes e comunicação. As primeiras formas de acesso ao território goiano estiveram – em grande parte de sua história colonial – dependentes da utilização de canoas e muares (os chamados tropeiros). Algum tempo depois, os únicos a trilhar o sertão goiano eram os carros de bois, mas não eliminando as funções dos tropeiros. Sendo assim, os carros de bois e as tropas eram os meios de transporte disponíveis em Goiás, mesmo que com capacidade de carga limitada por volume. Já no final do século XIX e início do XX, o trem de ferro e os carros de bois, bem como as tropas de burros, formavam um sistema modal de transporte responsável pela circulação de mercadorias e nos desdobramentos das relações sociais, comerciais, e também culturais, no estado. Era comum nos terminais ferroviários e nas estradas boiadeiras, o apito do trem ser confundido com a manhosa cantiga dos carros de bois. Por tudo isso é que eles são considerados os verdadeiros vetores da comunicação no Cerrado goiano. Foram importantes na lida interna das fazendas, quer puxando milho, mandioca, lenha, feijão em rama ou cereais em saca ou para realizar mudanças, além do transporte de animais de médio e pequeno porte, como porcos e galinhas. Eles serviram ainda ao transporte de passageiros, tanto para o atendimento de doentes quanto para o lazer de famílias. Conduzia as famílias de carreiros-proprietários, bem como as famílias amigas. As viagens de lazer eram igualmente frequentes. Geralmente se dirigiam de carros de bois a passeios de visitas – por exemplo – de uma família a outra, a jogos de futebol, a festas de casamentos ou a festas profano-religiosas, como na Romaria do Divino Pai Eterno, no município goiano de Trindade. Tudo, ou quase tudo, dependia daquela modalidade de tração animal. Testemunhos de um passado de vida simples, eles podem ser vistos como os trailers dos velhos tempos, antes de o país e o estado de Goiás se “embriagarem” com as estradas e rodovias destinadas aos automóveis. O fato é que a modernização, apesar de avassaladora e quase generalizada, não elimina as identidades culturais de um povo, pois elas adquirem e renovam as feições de resistências.
É o caso dos carros de bois, no exemplo atual. Antigamente os carros de bois traziam os devotos do Divino Pai Eterno para Trindade, hoje os devotos é que trazem os carros para a grande Romaria. Existem inúmeras festas populares onde os carros de bois são reverenciados como partes integrantes – ou, às vezes, protagonizadores do momento festivo – das celebrações, sejam elas religiosas ou mesmo encontros para relembrar seus usos no passado. Em boa parte dos estados brasileiros, a cada ano aumenta esse tipo de encontro, celebração. Entre estes, o maior destaque é o estado de Goiás. Por estas bandas de Goiás, além de Trindade, há desfiles em Anicuns, Itaberaí, Mossâmedes, Araçu e outras. Em Trindade, onde se realiza uma das maiores festas do catolicismo popular, em homenagem ao Divino Pai Eterno, a tradição dos desfiles dos carros de bois acontece há 178 anos. Nos festejos de 2018 reuniram 361 veículos (em 2010 foram 127) e a cada ano um novo recorde é alcançado. Ali – onde tem um espaço exclusivo para os desfiles chamado de Carreiródromo – chegam carreiros de vários municípios goianos: Anicuns, Aparecida de Goiânia, Mossâmedes, Niquelândia, Damolândia, Inhumas, Itaberaí, Americano do Brasil e outras localidades. Conclui-se que a velocidade das tecnologias num mundo globalizado faz com que determinadas coisas e objetos se tornem paradoxos da realidade, “démodé”. Além dos carros de boi, outros objetos culturais nos levam a crer que estariam “ultrapassados”: os jegues, as carroças, o trem de ferro, os cavalos, as bicicletas cargueiras etc. No tempo da pressa eles estariam superados, mas não extirpados da história, da memória coletiva, sendo, portanto, importantes componentes simbólicos na atualidade da (re)significação cultural do povo goiano.

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Fotógrafo, redator e designer, escreve para o portal VIU Magazine e é produtor da revista 'VIU?'. @MaxMullerMM

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