#VIU33: Os ventos do litoral que não “sopraram” no sertão

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Por Romero Ribeiro

No Brasil, o período aludido com a chegada da família real, em 1808, até a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 (com o Golpe de Estado), timbrado pelas dinastias dos “Dons Pedros” (pai e filho) proporcionou impactos – de toda natureza – na cidade do Rio de Janeiro. O Brasil, até então, era tido como colônia, mas em 19 de dezembro de 1815 passou à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarve, tendo suas capitanias transformadas em províncias (posteriormente, estados nacionais). A vinda e a permanência da família real para o Brasil mudou a fisionomia da Baía de Guanabara. A percepção urbana inicial dos estrangeiros, que julgaram-na como confusa, suja, feia e fétida, começou a se expandir e a mudar sua aparência, abrindo-a aos padrões europeus. Não apenas para os portugueses, mas também para franceses, ingleses, alemães, dentre outras nacionalidades de “fora”. Nada imaginado, inicialmente, para os de “dentro” (brasileiros). Foram erguidos chafarizes para o abastecimento de água potável, pontes e calçadas; abriram-se estradas, ruas e avenidas; criaram o Banco do Brasil, além de inaugurar museus, teatros e bibliotecas, faculdade de medicina, etc. Legados positivos. Todavia, os filhos da terra eram excluídos dos empregos públicos e tratados, ainda, como colonos, ou, por uma via negativa, raça subalterna. É bom que não nos esqueçamos de que para abrigar as mais de 15 mil pessoas da corte, vários moradores cariocas foram expulsos de suas casas. Isso mesmo, expulsos. Contudo, a família real, em território brasileiro, vivia (ou tentou transladar) como a realeza francesa coordenada por Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, que desfrutaram do melhor da luxúria que os mundos produziam naquela época: moradias, comidas, roupas, joias, bebidas, dentre outras, num contexto populacional rural e urbano desolados, famigerados e sem a garantia de quaisquer direitos, antes da efetiva Revolução Francesa, que se iniciou em 1789. É fato, num Brasil paupérrimo ainda imperava a força produtiva das lavouras de café, açúcar e extração de borracha concebida pelo trabalho escravo e mestiço de uma população analfabeta.

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Enfim, para encurtar esse diálogo, toda pompa da família imperial irá se estabelecer até a Proclamação da Nova República Brasileira, quase oitenta anos após a vinda lusitana. De uma via interpretativa mais plural, como o restante do país nutria do que estava acontecendo no Rio de Janeiro? Cabe recordar que tais transformações muito pouco atingiram o restante do território. Quase, ou, absolutamente nada, no estado de Goiás. No sertão de Goiás, a saga do ouro (1725 – 1780) foi a causa motivadora da descoberta e colonização desta região. Essa província sertaneja distante, isolada e de “costas” para o litoral padecia em função do esgotamento da produção de ouro e também das dificuldades de comunicação com as outras regiões brasileiras. Tanto é que a visão deixada por diversos viajantes estrangeiros (Silva e Souza, Cunha Matos e Saint Hilaire) que visitaram a província durante o século XIX (tempos imperiais) descreveram situações econômicas e sociais nada animadoras resultantes do fim do delírio do ouro: os poucos arraiais sendo extintos; abandonos; profunda apatia; pobreza generalizada; ruralização dos remanescentes indígenas, mulatos, europeus, escravos africanos e alforriados; criação de animais e roça para sobrevivência, e outras tantas desolações. Uma verdadeira letargia coletiva. Será mesmo? Tais situações não se coadunavam em nada com aquelas promovidas no Rio de Janeiro, desde a chegada da família real. Portanto, todos aqueles episódios na capital brasileira não tiveram ressonância em Goiás. Na política goiana, houve um predomínio da chamada “política dos governadores”, aliada aos conchavos coronelísticos. As famílias de José Leopoldo de Bulhões Jardim, Sebastião Fleury Curado, Eugênio Rodrigues Jardim e Antônio Ramos Caiado proporcionaram um jogo de alternâncias e alianças, contribuindo para a estabilidade e a longevidade da política em Goiás, do início do império até o fim da Primeira República, em 1930, como verdadeiros donos do poder.

Pode-se imaginar, historicamente, que com o fim do longevo do período imperial, após a Proclamação da República, o Brasil (e também Goiás) adentrou numa nova era política e democrática, minimizando as diferenças regionais. Mas será mesmo? Bem… Esta é outra longa história e, certamente, não se cabe aqui. Entretanto, pelo pouco do que foi exposto até aqui, é bem provável que os ventos do litoral não sopraram na direção do sertão.

De todo modo, viva a Proclamação da República do Brasil!

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Fotógrafo, redator e designer, escreve para o portal VIU Magazine e é produtor da revista 'VIU?'. @MaxMullerMM

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