Caminhos de Santa Dica

História feita é contada à Beira do Rio.

Era uma linda tarde de um domingo encantado, no ano de 2016, fomos passear pelos caminhos que levam a história de Santa Dica. Chegando no Povoado de Lagolândia, deparamos com um lugar lindo, tranquilo, de natureza exuberante, com um rio cristalino, com pessoas simples e que até hoje vivem a história da madrinha Dica…

Por Tatiane Di Passos

O processo de produção deste texto tem a finalidade de apresentar a história de Santa Dica, a primeira líder messiânica do Brasil, feminista, emblemática figura divina que nasceu com o dom da cura. Os caminhos que levam a história da madrinha ou comadre Dica – como gostava de ser chamada – é repleto de montanhas, fazendas preservadas, rios, fauna e flora, uma ótica rica do interior goiano sob suas diversificadas faces através do “olhar”, de quem nele vive e habita. É notório observar que a cidade hoje é o resultado das memórias de “Santa Dica”, sua identidade e tradição cultural permanecem vivas. Lagolândia está às margens do Rio do Peixe, que corre por entre a vegetação ainda bem preservada. Nas matas marginais é possível a observação de diversos tipos de aves e alguns mamíferos, como macacos e capivaras. Antigamente chegou a ser titulado como Rio Jordão, onde eram realizados os batizados feitos por Dica.

Magicamente, na beira desse Rio, acontece encontro inesperado com nossa entrevistada, a historiadora e pesquisadora Valdete Rezende, autora do livro “Santa Dica: história e encantamentos” que retrata Dica, como figura lendária, mulher de força política e de fé sincrética que viveu no período de 1905 a 1970 na região. Envolvendo em seu arcabouço teórico fragmentos e depoimentos, que com uma visão de mundo específica nos apresenta um novo olhar sobre a mulher Dica. Outro livro de extrema importância é “A menina que falava com os anjos”, publicada pela FLIPIRI (festa literária de Pirenópolis) e ilustrado pelo artista pirenopolino Claudimar Pereira. A obra, traz toda a trajetória de cura e poder de Dica, com uma linguagem de fácil entendimento e ilustrações genuínas.

De acordo com a estudiosa, Dica foi responsável pelas as construções públicas da cidade, escola, igreja, praça, associação de mulheres. “Benedita Cipriano Gomes era uma mulher forte, independente, e ao mesmo tempo sensível, espalhava amor, carinho e atenção. Madrinha Dica, foi uma figura guerreira, contemporânea, muito além do seu tempo”, afirma a historiadora.

Ao nascer recebeu o nome em homenagem ao São Benedito, padroeiro da família, responsável, segundo seus pais, pelo despertar de Dica considerada como morta pela parteira. Depois desse momento, com dois anos de idade, deu a primeira crise, denominada pela ciência por Catalepsia, mas popularmente chamada de “Crise de Ausência”. Dica ficou 24 horas desacordada em contato com os “anjos” (mentores espirituais). Ao acordar vomitou pus e sangue, pronta para assumir sua “missão”. A menina de apenas 2 anos inicia as primeiras curas pela imposição das mãos e a saliva.

Dica nasceu em um sítio próxima ao povoado de Capela, município de Pirenópolis. Com a prática da cura, a vidência de anjos, conversar em outras línguas, a avó busca a criança para próximo da atual Lagolândia, região rica e com muitas chuvas, o Rio do Peixe subia e formava pequenas lagoas naturais, por isso o nome Lagolândia, que quer dizer, cidade das Lagoas. Devido a degradação hoje não se formam mais as famosas lagoas. Os tropeiros paravam para descansar, comer, pernoitar e acabavam escutando a história da menina Dica. Eles mesmos levavam a história nas viagens, quanto até mesmo voltavam com suas famílias em busca das curas.

A avó de Dica passa a acolher todos que chegavam atrás da menina. Os primeiros assentados faziam pequenos ranchos, primeiro cobriam com palha de arroz, depois palha de buriti, e assim começaram a surgir as casas feitas de taipa. Só a partir de 1925 que as primeiras construções de adobe são levantadas e até hoje estão de pé de frente a praça da cidade.

No decorrer da história, Dica teve uns quatro momentos de “Catalepsia”, ou seja, se ausentava, ao ponto de ninguém mais se mobilizar para o enterro, sabendo que logo ela voltaria e quando recuperava a consciência, trazia as mensagens dos mentores, formando em 1923 os primeiros conselhos na cidade, as primeiras distribuições de terra e entorno de sua casa formou-se o povoado, instituindo o sistema de uso comum do solo.

A produção de alimentos era revertida para toda comunidade, aboliu a cobrança de impostos, pregava a igualdade, rezava missas, realizava casamentos, batizados e dava os nomes às crianças. Dica passa a comandar legiões de adoradores, lidera e cria seu próprio exército. Mulher de força política e de fé sincretizada, Benedicta potencializou sua devoção até hoje na região da cidade histórica de Pirenópolis, está no messianismo ímpar, que conquistou seguidores de diferentes religiões. “Dica desafiou sua transitoriedade. Aguerrida tenaz, transformou sonhos em realidades. Amor, solidariedade e trabalho gravaram seu nome na História”, afirma Valdete.

A moça Dica era uma morena bonita, “diferente dos padrões da morenice do lugar”, Mário Mendes, o jornalista, acabou se apaixonando pela personagem de sua reportagem e ficou com ela em Lagolândia, vindo a ser prefeito de Pirenópolis por força da liderança da mulher nos anos 30. Foi vendida pelo marido três vezes no garimpo, na terceira ela não volta, e mantem o casamento com Chico Teixeira, onde se manteve até o final de sua vida, tendo o túmulo do marido ao seu lado na praça da cidade de Lagolândia.

Seguindo os conselhos dos “mentores”, Dica pediu que fosse enterrada aos pés da Gameleira, em frente à sua casa, onde o chá das folhas seria o único remédio que precisavam, o chá segundo os “anjos”, era garantia de saúde.

Lagolândia é resultado das memórias da líder. A busca pelo curandeirismo é pouca, mas a tradição cultural se mantem hoje fiel à maneira que Dica criou. A folia de São João, feita só por mulheres em 24 de junho, é uma das celebrações que permanecem vivas. Um dia depois da folia começa a preparação para a festa do Doce, que acontece na terceira semana de julho, que é uma referência da passagem da Bíblia quando Moisés indo para Canãa com os cristãos, muitos fiéis começaram a cair no chão de fome e Deus manda do céu um pão doce. A festa é em homenagem ao Divino Espirito Santo, Nossa Senhora do Rosário e como seus pais, Santa Dica era devota de São Benedito, homenageado como padroeiro da festa.

Segundo as tradições, o doce não poderia ser comprado, com o espírito da fraternidade os ingredientes eram doados e produzidos por todos da comunidade. A festa movimenta o turismo local, pessoas de cidades vizinhas e de outros estados chegam para festejar. A parte religiosa conta com as rezas, os com terços cantados e logo após da celebração é servido comida tradicional caipira, logo após, os doces são apresentados e oferecidos ao povo. Uma mulher fundamental para o movimento feminista no Brasil. Essa pode ser a síntese da trajetória política e intelectual de Benedita – A Dica, que faleceu em 10 de novembro de 1970. Santa Dica é protagonista do filme “Benedita”, que traz uma reflexão sobre sua vida. Um do momentos curiosos da gravação para o trailer do filme, foi a cena em que a neta da historiadora Valdete, que faz a Dica criança e no momento da cena, a menina abre a mão, de onde incrivelmente sai voando uma linda borboleta amarela.

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