Elim Dutra caminhador do mundo

Artista plástico renomado, querido e respeitado pelo trabalho que executa, o diplomata e embaixador Elim Saturnino Ferreira Dutra recebe a equipe VIU? para uma entrevista exclusiva.

Por: Tatiane di Passos

Nascido no Rio Grande do Sul, o artista foi destaque na imprensa egípcia, com belas e memoráveis exposições. Foi embaixador no Egito, Itália, Argentina e EUA e, hoje, aposentado, vive em Pirenópolis. O embaixador, que é formado em Direito, descobriu o fascínio pela arte quando se preparava para ingressar na diplomacia. Enquanto aprendia sobre as tarefas das Relações Internacionais, também começava a desenvolver o seu talento para desenhar, pintar e esculpir e, a exemplo de João Cabral de Melo, Vinícius de Moraes e Guimarães Rosa, que mantinham suas funções de diplomatas e artistas, também estudou na escola de belas artes do Rio de Janeiro.

Com obras reconhecidas mundialmente pela criatividade na escolha de materiais, compostas de madeira e granito, o artista assimilou muito bem o abstracionismo. Retirando delicadamente a epiderme da madeira, cria sugestivos efeitos fotocromáticos. Para ele, os vazios nas suas esculturas representam função de maior destaque do que os plenos. “Desde sempre fui apaixonado pelas árvores, pela madeira, pelos objetos de madeira. As casas, os velhos arados, as ferramentas, as mesas, cadeiras, utensílios… Trabalhar com madeira para mim é algo sagrado, como uma religião. Talvez nenhum material tenha sido tão útil e tão ligado ao desenvolvimento do ser humano como a madeira”, declarou Elim certa vez, em seu site.

Ele relata que, em um dos momentos marcantes do início de sua carreira, a convite de sua namorada na época, conheceu o Instituto de Belas Artes de Porto Alegre. Por acaso, se deparou com a sala de esculturas e ficou encantado. Ao refletir sobre a origem da habilidade, do sentimento de fascínio, voltou-se para a infância e lembrou-se de quando acompanhava o pai, fazendeiro. Enquanto o pai cuidava dos bois, Dutra descobriu uma erosão, que no fundo era toda amarelada, cheia de argila. “Brincávamos de fazendinha. Eu moldava tudo com o barro e colocava para secar. Modelava muito brincando”, relembra o escultor.

Em 1980, fez sua primeira exposição no Teatro Nacional, em Brasília. Peças em madeira, que acompanhavam o modernismo da capital, com as linhas de Niemeyer. Então um grande artista brasileiro, que fez a apresentação de suas esculturas, Rubem Valentim, alertou que o artista, que se apresentava com uma arte abstrata, deveria ter um tema… Para cada linguagem um tema. “Na verdade não sabemos, mas já recebemos um tema: o ambiente que você influencia. Eu morava na capital federal e fazia formas abstratas. Essa primeira exposição foi inspirada em Brasília e tinha relação com a cidade, bastante desenhada; eram esculturas pequenas, então passou a se chamar série Brasília”, observa Elim.

 

 

O artista também morou na Colômbia, o país em cima dos Andes, com florestas e montanhas que muito contribuíram para sua inspiração. As esculturas ficaram maiores e arredondadas; encontrou madeiras bonitas e surgiu a série The Boss (O Chefe). Uma das histórias interessantes sobre a arte de Elim é que em fase de produção desta série, uma artista na Colômbia percebeu que suas esculturas se pareciam com “Zipa”, que é a figura de um cacique enterrado. “Não era a intenção. A escultura que eu estava fazendo era abstrata, não uma pessoa, então me disse que meu ser de dentro puxava isso. São esculturas que têm uma postura séria, com uma certa autoridade. Uma comprovação da real influência que um lugar pode ter em uma composição. A partir daí, observei que minha obra passou a incorporar um pouco de animismo, como se tivesse uma coisa viva dentro dela, sem que saiba o que é”, relata Elim.

Em 1985, a convite do amigo, o embaixador Sérgio Amaral, fez uma visita a Pirenópolis, na época da Festa do Divino. No momento em que encontrou a cidade, com o povo sentado nas escadarias da igreja, olhou para a casa em frente à Igreja do Rosário (Matriz), e afirmou que a compraria se estivesse a venda. Ironia do destino… Elim descobre que poderia comprá-la, e assim foi. Restaurou, e é um dos modelos de contribuição da riqueza do patrimônio histórico na cidade.

Cinco anos depois, compra outra casa em Pirenópolis, intitulando-a “Pouso do Sô Vigário”, referência à antiga Casa Paroquial, que se instalava na propriedade. É uma das pousadas charmosas de Pirenópolis, com galeria de arte que abriga suas principais obras. “Um dia um maestro amazônico, Guilherme Vaz, disse que ficou muito impactado quando entrou na galeria. Ele a comparava a um templo amazônico; pela primeira vez ele encontrava uma escultura totalmente americana, no sentido de nossa américa, não a do norte. Ele viajava pelo mundo e reforçava que as esculturas tinham um caráter da Amazônia, simbólico, e foi quando eu apresentei a ele uma série que tenho aqui, que são os ‘Senhores da Floresta’. Na época da Conferência Rio 92, as discussões sobre quem eram os donos das florestas – se eram os índios, ou os desbravadores, ou os garimpeiros que foram morar lá – se acaloraram”, conjectura o artista.

A série Senhores da Floresta nunca foi exposta. É composta de obras imponentes, os verdadeiros donos da floresta, uma representação contemporânea dos guardiões da Amazônia. As grandes esculturas estão guardadas em um lugar especial, em sua residência em Pirenópolis: uma bela casa rosa colonial, localizada no centro histórico, com uma linda árvore centenária na porta, uma das casas mais preservadas e fotografadas na cidade.

O interessante é que, no decorrer da entrevista, histórias da sua vida, de coincidências, instigam a curiosidade; ao procurar pelo escritor Jarbas Jaime sobre a história das casas, descobriu que as duas aquisições foram construídas pelo mesmo alferes, Boaventura de Oliveira.

Frequentemente Elim se ofusca pela beleza e a riqueza da história da cidade. Desde a arquitetura colonial, aos artistas que, com as pinturas em tela, retratam o importante patrimônio histórico da cultura do município. “A identidade local, enriquecida pela presença de tantos artistas renomados, como Pérsio Forzani, Claudimar Pereira e José Inácio, são o convite único para que turistas e a população entendam os caminhos que tornaram Pirenópolis internacional”, pontua Elim.

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