#VIU29 – A 7ª ARTE MOLDADA A ALMA E AMOR

Por Edna Gomes.

Fotos: Candé Salles.

A arte expõe o sentimento do ser que denota o viver, o que os homens comuns nominaram poema, como eu defino, e ao mesmo tempo dou sentido às minhas linhas dissertativas, sacadas das cores e veia poética para descrever e contar do cineasta e amigo Candé Salles.

Formado em Cinema na Faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, ele trabalhou na produtora Conspiração Filmes durante 10 anos. Seu trabalho desenvolve-se no infinito das fronteiras das lentes que projetam a sua produção multicultural. Estruturado na expectativa, Candé provoca o espectador e impulsiona sua pluralidade cultural dando asas ao poder de criação, extremamente intelectual.

Segundo ele, “os filmes, projetados em sala escura, transpõem o poder das imagens e transbordam a expansão dos sentidos, os quais vão além do simples e imensurável poder de aglutinação e persuasão da TV, no que se refere ao interesse do público”. O que o torna diferente é sua simplicidade enquanto pessoa e a voracidade criativa escondida do outro lado da lente, até que caia imagem na primeira cena provocante, sensual, capaz de fazer a alma viajar.

A primeira vez que vi Candé foi em Abadiânia. O cineasta estava ali com o objetivo de produzir um documentário sobre a vida e a obra do médium João de Deus. Alí começou sua viagem interior. Ele precisou de cinco anos para terminar o trabalho, exaustivo, porque precisava de um tempo para cuidar de sua alma. A sua sensibilidade o fez navegar no mundo da espiritualidade. Habilidoso e sutil, ele mesmo cuidou, arduamente, de filmar, porque queria conhecer a complexidade do mundo de João Teixeira de Faria (João de Deus).

Um dia, vendo-o filmar o pôr do sol na Casa de Dom Inácio, cheguei até ele e disse-lhe que depois de tudo o Sol continua nascendo e se pondo. Nada muda além de nós. E ele me respondeu: “Sol a meio-sol, olhando, escondido, o acender da vida”. O cineasta, brincalhão, estava sério neste dia e começou a chorar, por tantas emoções vividas junto ao médium João. Ele olhou para mim e disse: “Não sei se vou conseguir terminar este projeto”. De pronto eu respondi: Não desista jamais. Sempre haverá um céu estrelado, uma lua crescente, um sol nascendo e se pondo para ser contemplado”. Dalí, surgiu uma grande amizade, e no dia seguinte, quando cheguei à Casa de Dom Inácio e fui direto para os trabalhos, ele me parou, me sufocou com um grande abraço, olhou nos meus olhos e disse: “Você vai ser minha roteirista!” Ponto. Ali abrimos o livro e começamos a ler esse novo capítulo de nossa vida.

Candé é o arquiteto do cinema de arte que trabalha com a ferramenta do imaginário urbano. Ele poetisa a sua lente e vai transformando as imagens em história. O currículo de Candé Salles é extenso: ele dirigiu publicidade, videoclipes e também o programa de música Som & Areia para o Multishow. Ele (re)constrói este panorama visando alcançar os cinéfilos, usando para isso variadas e novas formas de se pensar, executar a ideia, produzir cinema, de gênero, ligado à diversidade cultural, diferentes formas de expressão, conectado ao que há de mais vivaz em se produz hoje na sétima arte, o cinema.
Antenado, criou o curta-metragem Casas Brancas, com Aline Moraes e Fernanda Lima. Dirigiu ainda seis mini-documentários sobre o Carnaval de Rua do Rio, os quais trazem Mart’nália, Preta Gil, Marcelo D2, Otto e Pedro Luís, entre outros nomes famosos ligados à cultura nacional. Candé é capaz de discutir as diferentes formas culturais nas suas mais variadas formas de expressão.

No momento, ele promoveu a exibição do seu último documentário João de Deus – O Silêncio é uma Prece no festival de cinema do Rio, e foi aplaudido de pé pelo público com o Cine Odeon lotado. Naquele momento eu entendi que o nosso trabalho de mostrar a vida do médium João de Deus é um filme sem roteiro, impulsionado por uma rota parcialmente determinada.
Quando assisti o documentário Para Sempre Teu, Caio F., eu percebi que aquele jovem cineasta sentia com o pensamento e me fez ficar simplesmente apaixonada pela sua extremada sensibilidade e profissionalismo. E confesso: fui às lágrimas, me emocionei, ao mesmo tempo em que refletia sobre muitas coisas. Enfim, a vida que se apresenta e acontece através “de suas tantas coisas”. O trabalho de Candé Salles traz a radiografia real dos sentimentos despertados nas relações do ser humano, as quais englobam e abrangem o lado pessoal e social, com a peculiaridade, em especial, de falar da dor, dos deslizes e mais ainda das incertezas do coração.

A solidão, tema recorrente do escritor Caio F. Abreu, nos faz perceber o vazio da vida como se estes pudessem ser ocupados por “qualquer coisa” que lhe oferecesse a esperança de – somente e uma única vez – poder e ter o poder de ser amado. Para aqueles que apreciam a obra de Caio, torna-se imprescindível e é imperdível assistir ao filme porque, confesso, a obra é simplesmente linda!

O último trabalho do cineasta é totalmente diferente: o seu personagem, João de Deus, é um homem que olha para o mundo com o olhar da luz, que na sua transformação, suas palavras transbordam cuidado com o outro, ensina a olhar a vida, aponta-nos todas as coisas que há nas flores, mostra-nos que a pedra pode ser lapidada. João só quer viver em paz e cumprir sua missão, que Deus lhe predestinou no mundo. Apenas ele quer sentir o que Deus fala em seu ouvido em um simples soprar do vento. Eu e Candé peregrinamos na essência da Casa de Dom Inácio e fomos movidos pela emoção do belíssimo trabalho de João. Um homem que fala com o olhar das entidades de luz.

Candé é dotado de uma vontade latente de explodir os limites da boa arte, tomando para si as ferramentas do cinema artesanal. Assim ele foi construindo o documentário O Silêncio é uma Prece. Ele, com sua máquina de filmar, foi adentrando na vida do médium sem pedir licença, e construiu as imagens contando sua verdade e simplicidade, sem retoque ou maquiagem.

Candé trabalhou com os melhores fotógrafos do mundo, entre eles Patrick Demachelier, Mert & Marcus e David LaChapelle. O multicultural Candé mistura ao imaginário audiovisual aquilo que o rodeia, ou seja, diante de um processo de complexidade e longa transformação, reinventa o cinema mundial focado e localizado, a partir do momento em que provoca e determina a produção da fita brasileira. Segundo o cineasta, “cinema é um fluxo sem limites de sonhos, uma síntese de todas as artes. Nem todos os espectadores estarão sensíveis a assistir um trabalho qualquer. Espero sempre deixar uma mensagem na alma das pessoas. O cinema torna-se capaz de colocar o espectador em êxtase, desde que consiga exprimir os seus sonhos.”

Candé recebeu o prêmio de Melhor Longa-metragem no Festival de Cinema de São Paulo, com documentário que retrata a vida e obra de Caio Fernando de Abreu, com o qual trabalhou quando tinha apenas 18 anos de idade.

Depois da maravilhosa estreia do documentário no Rio, o cineasta agora trabalha para que a obra sobre a vida de João de Deus entre no mercado nacional de cinema. O cineasta afirma que o fato de conhecer, de perto, João de Deus, mudou por completo sua vida, fazendo com que se sinta protegido, obtendo inclusive a cura, através da fé inabalável e dedicação, para os males que afligem o homem enquanto corpo, mente e alma. “Todos vão ver, neste filme, a minha fé no desconhecido, em tudo que não podemos compreender por meio da razão, o admirável trabalho espiritual de amor e dedicação ao próximo que João de Deus realiza na pequena e aconchegante cidade de Abadiânia, no estado de Goiás”.

Candé é assim: acalenta sonhos e esperanças, fazendo, através das lentes, a sua maior imaginação. Ele busca no amor e nas pequenas coisas um grande motivo para ser feliz entre luz, câmera e ação! O cineasta me olhou nos olhos e disse: “Preciso das lágrimas e dos sorrisos do público para ser feliz. Gosto de aplausos.” E eu também! Adorei caminhar com este cineasta no mundo mágico da espiritualidade. E com certeza tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem. The end.

Festival de Cinema do Rio.

Festival de Cinema do Rio.

João de Deus em cena do filme João de Deus - O Silêncio é Uma Prece. Foto: Candé Salles.

João de Deus em cena do filme João de Deus – O Silêncio é Uma Prece. Foto: Candé Salles.

João de Deus em NY. Foto: Candé Salles.

João de Deus em NY. Foto: Candé Salles.

 

 

 

 

 

 

 

Poster do filme.

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Fotógrafo, redator e designer, escreve para o portal VIU Magazine e é produtor da revista 'VIU?'. @MaxMullerMM

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